terça-feira, 13 de maio de 2008

Um caso que solicita misericórdia

Lamentável o escândalo que a mídia está fazendo com o caso da menina assassinada e supostamente jogada do quinto andar de um prédio em São Paulo.
Independente dos resultados da investigação, da ocorrência lamentável do assassinato, da violência perpetrada contra uma criança, não se justifica o assédio da imprensa, a valorização exagerada do infeliz acontecimento.
Apesar de tudo, a família merece compaixão. Já enfrentam, por si só, os envolvidos na questão, um drama onde não podemos imaginar, nem julgar, a origem, o fato em si e os desdobramentos que virão da violência, com morte, contra a menina.
Precipitamo-nos em julgar, condenar, massacrar. A mídia, por sua vez, exagerando no noticiário, com inserções várias vezes ao dia do andamento de prisões, depoimentos, libertação, testemunhas, etc., apenas tornam o fato mais cruel do que já é.
Para que tudo isso? Fico a pensar... Para divulgar o mal? Para exigir justiça? Para valorizar o momento infeliz vivido pelos personagens do difícil drama?
O mal não merece comentário. Claro que os fatos geram notícias, que são necessárias até para que nos preservemos da violência, para que vigiemos o próprio comportamento para igualmente não nos envolvermos nesses lamentáveis acontecimentos. Todavia, para que infernizar ainda mais a vida dessa família?
Para que alimentar um clima de violência, exercendo pressões sobre o já conturbado ambiente do planeta? Já não é hora de voltarmos os olhos com compaixão para esses sofridos personagens?
É verdade, violaram a lei. Alguém cometeu a violência de um assassinato. A lei humana tem o dever de esclarecer o caso. As leis morais já possuem mecanismos próprios de reparação. Mas o inconcebível é mesmo o exagero da informação como se esse fosse o mais importante assunto do país e da atualidade.
Milhares de crianças morrem diariamente de fome no mundo; violências são perpetradas contra mulheres; a dengue virou epidemia no Rio de Janeiro igualmente causando mortes. Por outro lado, porém, igualmente nascem diariamente milhares de crianças no Brasil, trazendo o cuidado e competência de profissionais da medicina e de instituições hospitalares que oferecem estrutura para que mais seres humanos sejam recepcionados no país, apesar de todas as dificuldades que o país enfrenta na área da saúde.
Não é melhor buscar, selecionar e divulgar o quanto de bom acontece diariamente? Não seria bom mostrar reportagens e fazer inserções de salas de aula, de crianças especiais amparadas pelas APAEs ou do cotidiano das empresas com seus funcionários em atividades, por exempo? Não seria muito mais motivador para a mentalidade brasileira assistir diariamente os eventos de cultura, de arte? Não seria mais saudável que a TV e os jornais destacassem nobres iniciativas de diferentes profissionais e voluntários em todo o país, trabalhando para o bem da coletividade?
Ah! Nossa tendência humana de valorizar o lado ruim dos acontecimentos!
E nesse lamentável fato, existe um lado bom? Não seria hora de pensar nisso? Há algum lado positivo a extrair dessa história toda? Se o Mestre da Humanidade se defrontasse com a ocorrência, como reagiria? Ele não abraçaria o autor da desdita, com olhos de compaixão e tolerância, convidando-o à reparação do mal e à melhora de si mesmo? Como procedeu com a mulher adúltera, não julgaria e nos convidaria igualmente a não julgar...
Afinal, não conhecemos a íntegra da história, razões que, embora não justifiquem, expressam a carência e fragilidade de nossa condição humana, aprendizes da ciência de viver.
Por outro lado, o conhecimento espírita convida a analisar o fato. Os espíritos ensinam que o homicídio é1 "(...) um grande crime, porque aquele que tira a vida do seu semelhante, corta uma vida de expiação ou de missão, e aí está o mal." Todavia, também ensinam que2 "(...) Deus é justo e julga a intenção mais do que o fato."
Porém, o Espírito São Luiz adverte3: "(...) não é proibido ver o mal quando o mal existe; haveria mesmo inconveniente em não ver por toda parte senão o bem: essa ilusão prejudicaria o progresso. O erro está em fazer resultar essa observação em detrimento do próximo, depreciando-o sem necessidade na opinião pública. (...)" .
Mas é com o Espírito Dufétre que o sentido da misericórdia se faz patente4: "(...) sede severos para convosco, indulgentes para com as fraquezas dos outros; é ainda uma prática da santa caridade que bem poucas pessoas observam. Todos tendes más tendências a vencer, defeitos a corrigir, hábitos a modificar; todos tendes um fardo mais ou menos pesado a depor para escalar o cume da montanha do progresso. Por que, pois, serdes tão clarividentes para com o próximo e cegos em relação a vós mesmos? (...)", indicando a mensagem do Evangelho. Afinal todos temos necessidade mútua de tolerância, compreensão e perdão.
Óbvio que nada justifica o bárbaro crime que sacudiu o país. No entanto, Isabella vive, pois é imortal. Desdobramentos espirituais imediatos e em próximas etapas reencarnatórias vão assinalar a vida de todos esses personagens, mas a misericórdia ensinada por Jesus conclama-nos, neste momento, à postura cristã daqueles que nos julgamos cristãos.
1 – O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, questão 746, 8ª edição IDE, tradução Salvador Gentile;
2 – O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, questão 747, 8ª edição IDE, tradução Salvador Gentile;
3 – O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, capítulo X, item 20, 252ª edição IDE, tradução de Salvador Gentile;
4 - O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, capítulo X, item 18, 252ª edição IDE, tradução de Salvador Gentile.

Escrito por: Therezinha de Oliveira

** por isso que me orgulho da doutrina que escolhi**

Nenhum comentário: